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A Boca do Lixo: O cinema e a mistureba unicamente brasileira

  • claquetebrasileira
  • 30 de set. de 2021
  • 2 min de leitura


Século XX, entre as ruas de São Paulo, em um quadrilátero que une a rua do Triunfo, a rua da Vitória e adjacências, onde viviam os marginais da capital, nasce um polo cinematográfico, uma Hollywood brasileira por onde passaram nossos maiores nomes do cinema autoral e suas experimentações.

Assim nasce a Boca do Lixo.

A região batizada assim devido aos seus frequentadores, pelo romantismo marginal das esquinas de uma cidade grande, onde o perigo e os prazeres andam lado a lado, abrigou então um momento único do cinema nacional. Vai muito além dos grandes nomes, existiu ali um desejo de produção, de manter o cinema em movimento, de cruzar diferentes gêneros e propostas.

Quando produtoras estrangeiras como a Fox e a Paramount se instalam na região, se inicia todo um movimento de criação desse polo cultural. Afinal, se todas as produtoras e distribuidores ocuparem o mesmo espaço, todos os processos de produção se tornam mais simples, mais interligados.

A partir daí cria-se uma comunidade cinematográfica, uma mistura única, mas tipicamente brasileira. Do terror ao suspense, o experimental, o policial, o romance e até as pornochanchadas ganham voz dentro da Boca do Lixo. O aglomerado de produtoras foi responsável por abrigar o Cinema Marginal, por exemplo, grande movimento de subversão das narrativas clássicas, explorando a aleatoriedade, a rebeldia e as mensagens mais provocativas em suas entrelinhas. Um dos filmes mais importantes dentro do movimento é o Bandido da Luz Vermelha, de 1968, dirigido por Rogério Sganzerla.




Impossível também é falar de tais produções sem se aprofundar nas Pornochanchadas, derivações eróticas dos clássicos da Chanchadas, explorando a sexualidade, não necessariamente explícitas, com baixo orçamento, mas com retorno financeiro alto.

Buscar resumir a Boca do Lixo apenas à Pornochanchada é um erro, mas tão errado quanto é acreditar que esse estilo de produção é menos cinema do que qualquer outra. Afinal, o modelo foi responsável por aproximar o público do cinema outra vez, fisgando a população brasileira pelo interesse no sexo, no erotismo. Filmes comerciais viabilizam filmes experimentais, esse é o ciclo da produção cinematográfica.

Assim, mesmo dentro de um filme “vazio” é possível tecer uma comédia de costumes, uma crítica que caminha à margem da censura.

Sobre o desejo de produzir, estima-se que durante a década de 70, 40% de todos os filmes nacionais foram produzidos na região. Por isso, falar da Boca do Lixo é falar sobre um espírito independente de produção, uma arte de guerrilha no sentido de abrir caminhos para o fazer cinematográfico, para manter o cinema vivo. Um misto entre a autoralidade e o comercial, onde grandes realizadores como José Mojica Marins (Zé do Caixão) produziu Pornochanchadas para viabilizar seu terror experimental.



No entanto, desmanchou-se o polo cinematográfico, enterrado nas ruas que agora pouco guardam do seu antigo glamour. Pelas áreas onde nasceu o berço do espírito desbravador da produção, foi engolido pelo tempo, pela cracolândia e hoje não passa de uma rua já esquecida, de casarões abandonados onde um dia respirou o cinema nacional. Estudar esse passado e reconhecer sua importância é manter viva a saudosa Boca do Lixo.



 
 
 

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