A guerrilha de Glauber
- claquetebrasileira
- 30 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Sem dinheiro, quebrado, mas com a certeza do que queria fazer.

O contexto da produção deste filme aconteceu na explosão da ditadura militar brasileira em 1964 e o que poderia ter se tornado uma dificuldade se mostrou um estímulo. Talvez por isso, o lema foi: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Essa frase permitiu a quebra de diversos paradigmas e estéticas já enraizados em produções cinematográficas, principalmente as hollywoodinas, como também a alienação popular. A busca era por uma arte engajada, movida pelas preocupações sociais e enraizada na cultura brasileira.
O filme dessa semana do Cine Guerrilha se chama: Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha e produzido em 1964. A realização de um Western com poucos recursos e orçamento brasileiro possibilitou o Cinema Novo mostrar todo seu potencial. Foi com a influência do Neorrealismo italiano e pela Nouvelle Vague francesa que a estética da fome foi abordada imageticamente de forma direta nesta produção e ajudou Glauber transmitir a crítica da desigualdade social do país naquele momento.
“Uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado.” (Glauber Rocha)
A experiência da realização do filme Barravento, um ano antes, trouxe ao cineasta baiano o jogo de cintura necessário para lhe dar com verbas baixas. Em Barravento, Glauber conseguiu a ajuda de Nelson Pereira dos Santos para montagem do longa metragem, além disso precisou recorrer ao socorro na dublagem pois os atores improvisaram e não seguiram o roteiro. Só após a chegada de um deficiente auditivo baiano com experiência em leitura labial a dublagem pode ser feita. Encontrar apoio das pessoas locais também foi algo que o fez entender que a ajuda sempre seria necessária e bem vinda.
Já estava tudo escrito, todo roteiro, sequências estudadas, decupagem plano a plano, trilha sonora pertinente a cada cena. A escolha dos atores já tinha sido decidida, mas ouve algumas alterações, Adriano Lisboa, que seria o cangaceiro Corisco, desistiu de última hora e deu lugar Othon Bastos, o que foi de grande valia. Outra alteração que ouve dos atores foi que a protagonista Rosa seria interpretada por Yoná Magalhães. Glauber enviara o roteiro para O playboy baiano Luiz Augusto Mendes, conhecido como Gugu, que resolveu produzir o filme apenas se sua companheira, Yoná, tivesse o papel principal. Foi ai que o jogo de cintura do cineasta entrou em cena. Para não perder essa oportunidade de produção, o papel de Rosa foi entregue a Magalhães sem pestanejar, mesmo que estivesse prometido à outra atriz. Glauber estava quebrado, não podia perder essa oportunidade, e após percorrer escritórios, bancos e órgãos públicos em busca de dinheiro para viabilizar o filme, sabia que essa seria sua chance de botar pra frente todo o projeto.

A produção era modesta e suficiente. Assistente de direção seria um eufemismo para braço direito, faz tudo ou pau para toda obra. Uma pessoa apenas deveria organizar os planos de filmagem, trabalhar com Rocha no roteiro e datilografar relatórios das cenas gravadas durante o dia. Outra pessoa seria sozinha responsável pelo cenário e figurino além da preparação dos figurantes e supervisão de diálogos. A equipe técnica cabia em um carro! Os figurantes receberam um salário pequeno, mas o que realmente serviu de estímulo para o trabalho desgastante no sol do sertão foi à promessa de latas de leite que Gugu prometera. Depois o playboy de Salvador anunciou que quem participasse das filmagens ganharia uma rifa para concorrer a duas máquinas de costura da Singer.
O filme foi finalizado a tempo de ser apresentado ao Itamaraty para concorrer em Canes e apesar de não ter ganhado a vitória já tinha sido conquistada. Um filme com poucos recursos apresentado em um país consagrado na arte cinematográfica, a França, através de um dos maiores festivais de cinema do mundo já era uma grande conquista.





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