QUEM GOSTA DE FILME POBRE?
- claquetebrasileira
- 28 de out. de 2021
- 3 min de leitura

Foto da Internet
O cinema não é uma arte de migalhas, não pode ser feito de pequenas produções. Cinema é feito para lotar as salas, encantar o público, é feito para movimentar a economia. Milhões.
E se o cinema é capaz de tecer realidades, findar universos inteiros e exibir os mais belos rostos impossíveis, então por que alguém gastaria o seu tempo com um filme pobre?
Atores que encaram a câmera, cores mal elaboradas, imagem em baixa qualidade e tão pouco apelo visual. As filmagens que chacoalham em cada travessia no set e o som estourado, torneado por ruídos.
É preciso odiar cinema, para amar esses filmes pobres.
No entanto, é diante desses mesmos filmes empobrecidos, que abre-se a margem para a reinvenção. É na falta de incentivo, a maior das problemáticas, que a arte marginal e guerrilheira abre caminho para se ter esperança em um futuro para o cinema.
Quando nos referimos ao cinema de baixo orçamento, estamos falando sobre uma ideia que está lutando para ganhar vida, tomar o mundo em forma de cinema. Então, o que seria o berço do cinema se não esse desejo de produzir?
Todos os dias, centenas de estudantes colocam suas ideias no papel, pegam suas câmeras vagabundas e tentam fazer o melhor. O dinheiro é justo, o retorno financeiro não é esmola. No entanto, o mercado audiovisual é uma arapuca, um eterno enfrentamento contra o desmanche.
Em um dia pode-se respirar os maiores incentivos, colher as melhores verbas e arcar com os melhores patrocínios, enquanto no dia seguinte já não se existe mais um tostão para fazer e amar cinema. Porque com o avanço do negacionismo predatório, da ignorância e da barbárie, percebemos que nenhuma conquista é garantida para sempre.
E quando não há glamour em se fazer cinema, quem estará de pé para continuar a rodar ideias? Quem, senão os mesmos filmes pobres que tanto desdenhamos e nos recusamos a enxergar. Todo gênero que hoje se torna popular, um dia foi uma ideia arriscada, sem apoio.
Ao falarmos de Zé do Caixão, falamos sobre um lunático, apaixonado, que decidiu trazer o terror Pulp para as telas brasileiras. Se contássemos talvez com o apoio das grandes empresas, se contássemos então com a aceitação da elite, não teríamos espaço para que crescesse o terror nacional como vemos hoje em dia.
Dentro da Netflix há um filme senegalês, intitulado Atlantique, que mesmo com baixo orçamento, entrega uma sensibilidade única da cultura regional e dos encantos que cercam o mar. Por debaixo das atuações instáveis e dos poucos recursos, existe uma iniciativa, uma história que foge do eixo, do que estamos acostumados com o protagonismo eurocêntrico e o imperialismo americano.
Os alicerces do cinema estão todos ali, muito além da quantidade de dinheiro investida em um filme. Por isso, não há qualquer justiça em se comparar um filme amador, de guerrilha, com uma produção milionária de Hollywood. A visibilidade que trazemos aos pequenos filmes, é uma moeda de troca valiosa, é o esforço para que se rompa a margem e enfim se chegue ao centro.
Afinal, quem gosta de filme pobre?
Ninguém.
Mas deixar de assisti-los, rejeitar uma produção de baixo custo é a maneira certeira de entregar o nosso cinema ao fetichismo, tornando-o obsoleto e refém das grandes instituições e a política predatória, que há muito busca desmontar as produções e o seu potencial crítico imaginativo. Aliás, como dito, é nas margens que o surge o espaço para a experimentação, para o erro e para o avanço da liberdade.
É da guerrilha e da margem, que os gêneros afloram e se misturam. Embora haja responsabilidade pública em manter a arte viva, há em cada admirador da arte a responsabilidade de enxergar além das câmeras baratas e encontrar ali, no cerne de uma produção, o pulso vivo do cinema brasileiro.
Por João Mendes
Contato: Docx.mendes@gmail.com





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